A Lua.

Dizem eles que a Lua hoje está por hoje mais próxima de nós, achegando-se em largos palmos, sem perigo, digo eu, na sua intemporal elipse em torno da Terra. Parece-me ela hoje maior, não sei se estará de facto, ou se será apenas a vontade que os meus olhos têm de a ver maior.

Se, assim, de facto, ela esteja mais perto, prevejo que a gataria se solte, esta noite, em gemidos eléctricos de sôfrego cio fora de tempo, de rabos eriçados e espigados, enrolando-se em instintos felinos de garras arrepeladas para fora das patas, sem dó, nem piedade, sirva-lhes o pêlo, que para animais estão eles muito bem servidos, pelo calor do fogo humano e pelas espinhas que lhes deitam. Deixemos nós, então, que eles se deitem em repetidos combates sem razão, que as pupilas se dilatem, que se oiçam os arranhares de garganta e os arranhares de pêlo, tudo por um rabo de cauda, tudo sempre foi por uma mulher, dos gatos ao sonetos, das cadelas ao Taj Mahal, e esta noite a Lua está mais perto, também lhes vai iluminar o pêlo em carícias cintilantes de esguio andar, os cabelos, que baloiçam na cor escarlate em suspensão no ar que cheira a fumo, da noite dos últimos dias de Inverno; ainda se sentam as pessoas a aquecer as mãos, à volta da braseira, mas já se arregaçam as mangas das camisolas e dos casacos e já se puxam colarinhos em desabafos e assopros.

Vejo uns bichos, a esvoaçar, cortejando o ar que se arrefece, e vejo, quando passa, e vai passando, como que me cumprimentando, um morcego. À distância, na linha do horizonte acidentado, sobe o pinhal na sua silhueta cheia de sombras, cheia de vento, e os corvos passam-se de pinheiro em pinheiro, enrolados na luz que desce da Lua redondíssima e prateada que por cima deles está, mais que o deus que eles nunca saberão que existe; e todos os dias cantam a morte sem a conhecer, pouco antes de tocarem os sinos da igreja, a avisar defunto na aldeia.

Como se bradam os céus, de braços abertos, também os corvos batem as asas e gritam pela Lua, berram num barulho rouco e arrastado, mas agudo, que gostam de se ver assim vestidos, num manto de negro resplandecente, abençoada Lua que puxas esta vida que não se sabe e não se é (e eu, sou-me?).

E oiço os cães a uivar: primeiro um uivo agudo, de algum canídeo rasteiro, vindo de Sul e e outro, mais robusto, de cão velho e agastado, que uiva em resposta, num latir de leito de morte, vem-me aos ouvidos pouco mais longe que do fim da minha rua. Poderia apostar todo o dinheiro que tenho e não tenho, e mais um relógio que guardo com cerimónia, que era do meu avô e tem valor sentimental quase inestimável, digo quase porque dinheiro que compra carne, também compra o ouro frio em que se guardam as memórias, e ofereço mais a minha alma se for preciso, que estes cães da vizinhança estão a falar da Lua, em uivos.

E eles convidam-me a uivar, também; e eu uivo, por ti.

A Lua enrola-se na erva do campo, entorna todo o seu brilho na grama que se torce no vento que sopra rente ao chão, e brilha inteira e, mesmo iluminando e revolvendo as brasas do meu engenho, soprando-lhes com fôlego de mil fidípedes, não me aquece.

Serão, portanto, outros os meus desejos de seio acolhedor, que não o-homem-que-acarta-o-braçado-de-lenha-às-costas e aquilo a que chamamos a outra sua face negra, digo, a Lua; sei-te tão bem que não tenho dúvida nem hesitação em dizer que te serviria o escuro do meu quarto, e que me alumiarias o lençol com o teu suor, e, no fim, ficando tudo mais escuro do que já estava, suspirarias palavras quentes de uma paixão remota e inventada no cume de um orgasmo, ofegante, perdida.

E se eu quero, e se tu também queres, então porque estou eu aqui a escrever da Lua, quando poderia estar a cantar-te trovas de arrepios, ou um fado em língua romance de bocas que se juntam e corpos que se derretem um no outro?

E eu uivo, por ti.

publicado por Gualter Ego às 21:13 | link do post | comentar