O outro.

Sabendo que não há diferença empírica entre os átomos de uma entidade viva e os de uma entidade que já não é viva, ele ia atrasando os movimentos da lâmina na candura da palidez falecida, não haverá pressas, que a donzela está dormindo em função da eternidade, só a vai deitar fora quando já cheirar a podre. Segue olhando-a, e à sua rigidez de carnadura, enquanto esfregava a tesão, fumando um cigarro, lentamente, e cada travo de fumo é um suspiro pesado, a morte em cada um deles, pedaços, nada mais há que pedaços, e ele só fuma por ser demasiado preguiçoso para ser matar.

A cada piscar de olhos as paredes do quarto apertavam o espaço em largos jorros de alucinação e nada se ouvia senão um respirar pesado. Que bonito é o cessar de existir, não, eu não sou louco, acho a morte algo verdadeiramente belo, é a vida, por tanta morte a morte ser, expirar pela última vez, o último pestanejar, o derradeiro pensamento, a luz, haja luz ou não, seja um túnel ou uma escada, o cortejo fúnebre, as honras do enterro, ir deitado, hermeticamente selado, de fato e gravata, com as mãos sobre o peito, sério e sereno. E depois era apenas o caixão que oferecia resistência aos processos biológicos e químicos, e mais o que seja, da decomposição, os vermes, do pó ao pó, do buraco ao buraco, não somos nada mais que comida andante para vermes. Haja Inferno ou não, com certeza que o Diabo não me iria querer por lá. O meu avô dizia que o Diabo capava todos os homens que entravam no Inferno, para ficar com as pecadoras e as putas todas para ele. S. Pedro nunca me deixaria entrar no Céu. Talvez fique por cá, a assombrar-vos, a fingir que sou o assobio do vento das portadas da janela do teu quarto, ou o ranger do soalho quando te levantas de noite para ir mijar. Hão-de pagar pelo inferno que eu vivi. Morrer só é sinal que se esteve vivo.

Portanto, ele olhou-a nos olhos e salivou. Esfregou a sua face na dela e sentiu-lhe o gelo que era a pele, sentiu um zumbido quente no ouvido que lhe arranhava o cérebro e lhe escorria de desejo a mão até à púbis negra do corpo, que já não seria homem, nem mulher, apenas um corpo, que ali tinha prostrado ladeando-o, como um acólito de um ritual perverso.

A sua boca parece que sorria, como os cisnes cantam em júbilo antes de morrer, e ele beijou-a. Não se trocaram salivas, por só de um lado a boca estar molhada, mas nunca ele tinha beijado lábios tão sedosos. Passou-lhe a mão pelo sangue seco e quente que se fazia mostrar como um fio de diamantes, ou antes rubis, pela cor. Tanta vida houve que o sangue havia jorrado da carótida até ao tecto, podíamos pintar as paredes com esta vida escarlate, que fumegava no frio no quarto.

Tomou-a uma vez mais, fez dela o que quis, e quando se veio começou a chorar.

Ela ainda cheirava ao outro.

publicado por Gualter Ego às 19:27 | link do post | comentar