Preguiça.

É uma verdade imperial, que a cama se transforma durante a noite, apenas para se tornar mais confortável de manhã e nos prender. E tudo nela cheira a sonhos e a dormir. A fronha, os lençóis, o pijama. Tudo cheira a preguiça, a ramelas, a pesadelos... Dormir é metafísica bruta. Dormir é o mais próximo do céu, o utópico, não aquele que é azul e tem nuvens, que alguma vez poderemos chegar. Dormir, pensava ela, acordada pelo ladrar a quatro tempos dos cães da vizinhança, é um pedaço de morrer. E todos esses intervalos de viver, que eram as noites que passava a dormir, e nunca nada lhe tirava o sono, tinha-os como sagrados. Eram as horas destiladas no vazio, escorrendo nos lençóis, derretendo-se em si próprias, no descanso, no sereno poisar do corpo, até ao nascer do sol.

- Ontem tentei matar-me... - sussurrou, lentamente virando a cabeça para o lado esquerdo.

- Hum? - ouviu-se do outro lado, como se fosse uma espécie de grunhido cansado, vindo da garganta de um homem moreno.

- Ontem tentei matar-me. Tentei cortar os pulsos... - repetiu.

- E o que é que te impediu? - perguntou-lhe, ele, sem saber muito bem o que estava a dizer.

- Se sobrevivesse, teria que limpar o sangue do chão...

publicado por Gualter Ego às 22:09 | link do post | comentar