O meu coração há-de pesar bastante na balança de Anúbis.

Sou embriagada alma em busca de embriagada inspiração. Não a aches menos genuína por isso, a inspiração, que a verdade é minha tanto quanto eu quero que ela seja verdade.

Ilusão? Talvez não. Talvez seja o desejo que se esconde. Ou a chuva que cai e a carne que quer. Não, não é ilusão; é o que a carne quer. (E o que a carne quer não se discute.) E a carne vai comandando a alma, pegando o leme com mãos firmes e calejadas, porque tudo se resume a frágeis palavras que a razão enfraquece.

Tudo é mais genuíno, e esta lágrima é por mim, que teimo em escrever o que acho ser mais feio embora puro, não querendo sublinhar o ego, que, chuvoso e embriagado, que embriagado apenas se quer escrever, é nulo e morto, por ser vivo no nada.

Creio, pois, que o fim será quando os vermes decidirem comer a minha carne e limpar os meus ossos; à merda voltaremos, porque merda, pensante e andante, nós somos. Mortos-vivos, vivos-mortos, devorados por vermes metafóricos, até que baixaremos à terra, a sete palmos do cimo, nossos imundos corpos e os vermes passarão a ser verdadeiros e hão-de te morder sem te doer.

Sou já morto, mas não o sei e ninguém me perguntou "rico menino, quereis nascer?"; só morro se alguém disser: merda, ela ainda agora estava vivo e respirava, e agora está rijo, pálido e parece que já não respira.

Encontro-me, porém, conformado (talvez consumado), porque o além a que aspiro, e todo o além que encontro, encontro-o nas curvas de uma mulher.

Mais vale viver, numa mulher e no seu corpo, sem o saber, se morrer é luto e memória e nada mais.

Morrer é luto e ser velado, porque em alguém fomos vivendo; é uma certidão de óbito. E se ninguém me vir morrer, se ninguém se vestir de preto ou se lembrar que vivi, morrerei? Creio que não, pois nem para a mãe que me pariu cessei de viver.

Só morro em quem me ama e em quem me quer, porque tais gentes sabem tudo o que não sou. Ouviram, já, a minha voz e sentiram, que não fosse de gracejo ou de puro desejo, o calor da minha pele.

Que sou eu? Eu, menos que pensamento, memória, verso e rima? Vã realidade carnal que não ultrapassa as metafóricas levezas do ser. Ou não tão vã assim, essa realidade carnal, enquanto viver para a mulher, o seu olhar e os seus cabelos, enquanto isso me bastar.

Deus não estará morto, como matéria que se faz ver. E se Deus for o Mal e a Morte, exijo que seja o coveiro o primeiro a morrer.

 

Julgo que na morte não chamarei por Ti, nem por teu filho. Se o fizer, tanto melhor. Poeta que seja descrente é poeta falsificado.

 

publicado por Gualter Ego às 02:30 | link do post | comentar