Deus está morto.

O uísque âmbar, reluzente, rodava no fundo do copo incessantemente e mão que rodava o copo, fazendo tilintar as pedras de gelo e o vidro, tremia ao movimento. Os olhos lânguidos daquele homem, miravam, sem pestanejar, a imagem de Cristo na cruz, pregada na parede. Chovia abundantemente e de vez em quando uns trovões faziam-se sentir, ribombando por entre as gotas de chuva grossa, fazendo tremer as janelas da casa velha onde, na poltrona, se sentava o homem de quem olhamos os movimentos. Uma vela acesa prostrava-se na mesa de cerejeira, do lado esquerdo da poltrona, onde estavam, também, a garrafa de uísque, um revólver com uma só bala e um retrato de família, cujo vidro da moldura se encontrava rachado no canto interior esquerdo, onde se encontrava facilmente a face deste nosso protagonista, tirando-lhe as olheiras fundas e a forte barba mal germinada, ao lado de uma senhora bonita, de cabelos longos e morenos, dona de um peito generoso e onde estava também, no meio do retrato, um rapazinho sardento, sorridente.

No fundo da sala, um gira-discos soltava o talento de Chopin. Quando ele, soprando, apagou a vela, as notas musicais dançaram alegremente com o fumo que se elevava pelo ar, desvanecendo-se aos poucos, nos seus contornos cinzelados. Olhando fixamente o crucifixo, agarrou no revólver com a mão esquerda, já chorando, com os olhos inchados e encarnados, puxou o cão do revólver para trás, lentamente e, de um trago, engoliu o que restava de uísque no copo. Antes de meter o cano da arma na boca, disse "Deus, dai-me forças...".

No exacto instante em que, na tal casa que referimos, o gatilho de revólver era premido, Sr. Aníbal ejaculava cerca de trezentos milhões de espermatozóides no interior da sua esposa, D. Conceição, no rito humano do simbolismo romântico e, para os menos poéticos, no acto instintivo da procriação. Oito meses e vinte e seis dias depois, D. Conceição deu à luz um menino gordo, forte e bochechudo, com cinco dedos em cada mão e cinco dedos em cada pé, duas orelhas, dois olhos e uma boca. Não foi necessário darem uma palmada ao recém-nascido rapaz para ele chorar: mal saiu de dentro da mãe, berrou como um bebé digno desse estatuto. Depois de o limparem minimamente de todo o sangue e restantes fluidos maternais, entregaram-no aos braços de D. Conceição, sua mãe, que, entre sorrisos, exaltou "Graças a Deus...".

 

publicado por Gualter Ego às 22:20 | link do post | comentar