Corpus Christi.

Na parede do fundo daquela sala, havia um crucifixo. E lá estava Jesus Cristo, pendurado pelos braços, por pregos de muitas polegadas, a esse pedaço de madeira velha, com um brilho opaco, inevitável adjectivo temporal, empoeirado e cansado. Com o que lhe resta da túnica pela cintura, a tapar as vergonhas, e as chagas a sangrar, para a eternidade, ali passa os dias, olhando as moscas que voam frenéticas, algum ou outro pardal que poisa na janela ou, o que é raro, alguém que passe e o olhe a ele. Do outro lado da sala, na parede paralela a esta onde se encontra o Filho de Deus, estava um relógio.

Esse relógio parou de funcionar, um dia destes. Parou, sem mais nem menos, sem pedir autorização, nem dar satisfações, o que também nunca lhe seria pedido. Parou. Não se sabe se foi a bateria que se acabou, se alguma das engrenagens encravou - eu, sinceramente, pouco ou nada sei de relógios - ou se foi por obras divinas, transcendentes ao Homem. Talvez estivesse Nosso Senhor farto de ver o tempo passar, sem a pilha do relógio se decidir a pôr um fim àquela monótona monotonia, que, sim, não era mais que o simples trabalho de um mísero relógio, mas que já se tornava objecto de tortura e, com um piscar de olhos, tivesse feito os ponteiros parar, sem estes se atreverem a mexer mais um milímetro que fosse.

Com sinceridade, também ficaria farto daquele, aparentemente, infindável tique-taque, dia após dia, noite após noite, contribuindo ainda mais para a pose de sofrimento e dor daquele calvário, a morte sádica de um homem, que homem nasceu e homem morreu, mas, morte essa, que não nos importamos de expor por cima da cama de uma criança.

Compreende-se o semblante pesado do cenário: coitado de Cristo que está na cruz e não pode coçar uma eventual comichão que lhe venha a dar num sovaco.

publicado por Gualter Ego às 23:25 | link do post | comentar