Nu.

Está nu. À sua frente, um espelho. Há vários minutos que tinha puxado uma cadeira e decidido sentar-se à frente daquele espelho. A cadeira rangia, carunchosa por si própria, por já lhe custar o peso de quem lhe dava o devido uso. Por trás dele, uma banheira marcada pela água que ficava dos poucos banhos que ele tomava, que a torneira apenas deitava água fria, por vezes lamacenta. Uma lâmpada pálida e fraca alumia aquele degredo, ilumina o bafo quente e podre do homem, sentado, que expira e o cheiro a mijo das suas roupas frias e manchadas. Nos seus olhos, desalento. Escorregam-lhe pela cara duas ou três gotas salgadas de choro.

Tenta sorrir para o espelho. Chega-se mais perto, inspecciona os dentes amarelos, esfrega-os com um dedo, estica o sorriso até mostrar mostrar as gengivas encarnadas e retorna ao semblante sisudo, lambendo os lábios neuroticamente. Acaricia a barba por fazer, de olhos fechados, que há muito que não lhe passam a mão pela cara. Mãe... - sussurra ele.

Bebe um trago de água da torneira com sabor a ferrugem e levanta-se. Caminha até à cozinha, em passos calmos e ritmados, maestrado pelo tique-taque do ponteiro dos segundos do relógio de parede. Uma mosca na mesa, levanta voo quando ele passa. Abre uma gaveta, desvia uma colher, dois garfos e encontra uma faca. No reflexo da lâmina, volta a examinar os dentes sujos e a esfregá-los com um dedo. Aquela faca, lâmina de aço e cabo de madeira, é tanto para ele, como um crucifixo para um crente, tanto salvação, como sacrifício ou redenção. Deita-se na banheira, fecha os olhos. Dentro de si, fervilha o sangue de outros tempos, e as memórias, tanto imaculadas como eróticas, levam-no a um orgasmo, não dando merecido descanso à sua mão. Essa mesma mão, a direita, agarra com convicção no cabo de madeira da faca. Inspira, expira, encosta a lâmina ao pescoço e sorri. Desliza a lâmina redentora, pela carne quente, libertando o sangue fervilhante de quem já não tem fôlego para continuar a viver.

Dizem que a solidão enlouquece.

 

publicado por Gualter Ego às 19:15 | link do post | comentar