Terça-feira, 15.05.12

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Quiséssemos ou não, não havia tresmalho. Sequer tentativa de nos negarmos à confissão e devida penitência. Um a um, a petizada mais parecia um rebanho de ovelhinhas de carnadura jovem e tenra, cada um, maquinalmente, a benzer-se ao pai, ao filho e ao espírito santo, com as rótulas moídas a raspar no soalho, a confessar como pecado o não ter ajudado a mãe a fazer a cama, ou o ter dado umas chapadas àqueloutro que trapaceou no jogo da bola. Debitava-se de um gole repentino o acto de contrição, sem sabermos o que dizíamos - que importa?, as noções mais puras são as ingénuas, que o caminho para o inferno está calcetado de boas intenções e ideias de desvario - e púnhamo-nos a dois a dois à frente do cristo na cruz, com a pose habitual, os braços estendidos até às pontas, pregados cada um com cavilhas de oito polegadas de roda, pés sobrepostos também martelados, pedaço de pano a tapar as singelas vergonhas de deus-filho, coroa de espinhos a voltear a testa e a face disposta sobre o peito, num ar muito sorumbático, o de sempre, de quem está cansado de estar ali, para sempre, e de ter que ouvir os miúdos rir no meio dos padres-nossos que lhos fazem repetir três e quatro e cinco vezes, para lhes salvar as almas não sei do quê.
A minha avó sempre me disse que enquanto fosse miúdo e não soubesse das mulheres não havia ruindade que me tirasse o lugar no céu.

Gualter Ego às 22:41 | link do post | comentar
Domingo, 13.05.12

00h56

- Ser é pesado. E não tem jeito.
- Mas é. Eu tenho vivido muito, e sinto tudo tão leve e as passagens vão sendo.
- Tenho ponderado deixar de viver.
- Num plano realista ou num plano romântico circundado de intransponíveis pontes?
- Realista. Niilista. Existencialista. Sôfrega mágoa. Alguma vez me conheceste como um romântico irracional? Bem me parece.
- Não como um romântico irracional mas também não como um suicida realista, embora saiba que o suicídio sempre teve sobre ti o mesmo efeito que uma palmeira ao longe na paisagem. Como podes pensar de uma forma realista na possibilidade de te retirares a vida?
- Diz-me - encontras sentido em estar vivo?
- Para que falemos a mesma língua, define sentido.
- Valor, meta, razão de ser.
- Valor sim, meta não, razão de ser sim.
- Dizei-os.
- Valor é todo o que tem, todo o que pode ter, todo o que é. Razão de ser? Ser é razão suficiente.
- Ainda bem que assim vês, só se estraga uma família.
- Então e o que te leva a não ver a beleza única de ser? Diz-me o que te leva a questionar o viver.
- O acaso. A coincidência. O sofrimento.
- Os dois primeiros não existem o terceiro é parte do todo ou ele não seria todo.
- Crente no destino? Bons olhos te vêem.
- Quem falou no destino?
- Se não existe o acaso, existe o quê?
- Existem acções e reacções, mecanismos de funcionamento universal que fazem com que a pedra role embata na outra e caia a outra no lago. Nós como todo-poderosos senhores.
- Acções e reacções, que são meras coincidências. A pedra cai porque há gravidade. Mas entre a pedra e a gravidade não há nada que se possa dizer-lhes comum.
- A existência. A tua percepção.
- Se não houvesse mais ninguém no mundo - poderias dizer que existias?
- Sim. Com a mesma certeza que hoje. E porquê? Porque só terei sempre a certeza de mim.
- Sim? Mas não é todo o conhecimento mais que comparação de realidades?
- Obviamente que, para viver, me abstraio desta certeza, mas, todo o conhecimento sou apenas eu.
- Dou por mim a duvidar bastante da realidade. As memórias começam a não me bastar. Os sonhos começam a ser demasiado vívidos.
- Mas queres ter certezas dela para quê?
- Para não enlouquecer.
- Eu não enlouqueço, aceito.
- Aceitar? Mas aceitar o quê?
- Que a realidade é só eu e resume-se a isso, que nunca terei certezas dela para além de mim nem dela em mim mas é isto e isto é.
- Lá está. Mas como podes saber que a realidade é tua? Eu posso estar a sonhar esta conversa? Posso. Quem me garante que não?
- Ninguém. Mas vais fazer o quê? Tentar acordar? E se não der? E entras num girar eterno de loucura e esquizofrenia do mundo do sonho e do real. Se quiseres digo-te que é real, que é isto, porque para mim ser real é ser isto.
- Isto?
- Isto. Seja isso sonho ou a realidade para a qual não consigo acordar, para mim isto é real aqui e agora, é aqui que estou e assim estou.
- E achas que ser fruto do acaso que se desenrola à milhões de anos é bênção ou maldição?
- É.

 

(…)

 

- A morte é o fim de quê?
- Tem de ser fim de alguma coisa?
- Claro. Então a vida seria o quê? A sucessão sucessiva de acontecimentos, como marca cronológica, tem que ter um fim.
- Mas a morte em si não é um fim, é uma coisa com independência. É mais um dos eventos da, como lhe chamaste, “sucessão sucessiva de acontecimentos”
- Não é fim? A morte, cada morte, é o fim do mundo!
- De cada mundo assim como é hoje.
- Há pouco dizias que a realidade és tu, não foi? Que dela não podias sair e que de fora dela nada podia entrar. Então cada morte é um apocalipse.
- Não percebo o silogismo aí.
- Se eu acabo para o mundo aquando da minha morte, então o mundo acaba para mim. Se eu sou eu e mais ninguém e enquanto vivo só eu posso afirmar com certeza que o mundo existe, isso deixa de poder ser possível quando o meu coração pára. Assim, o mundo acaba quando eu morro.
- E então?
- Então? Ah, queres ver-me vermelho de cólera? A morte é a forma mais gloriosa de brindar à vida.
- E o ódio a forma mais gloriosa de amor? E a guerra a forma mais gloriosa de paz? E a fome a mais gloriosa forma de comida? E a sede a forma mais gloriosa de água? Serem opostos não lhes dá o atributo de serem a mais gloriosa forma da sua antitese. A morte é a forma mais gloriosa de brindar à morte. A vida é a forma mais gloriosa de brindar à vida.
- O que era feito do valor da vida se não houvesse a morte? Diz-me! O que era o calor se não houvesse frio? O que era o prazer se não houvesse desejo? Ah!
- O valor da vida seria então, finalmente, o valor mais puro da vida! O calor seria isso mesmo calor, e chamar-se-ia provavelmente apenas temperatura pois não existiria então o pólo oposto.
- Exacto! Então a vida era simplesmente estar e não viver. Porque viver implica fim. Se o conceito de fim, a vida humana não tinha valor. Um objecto tem valor quando é raro.
- Os objectos têm o valor que tu lhes dás. Não acho um diamante mais raro que uma flor. Viver implica fim, e não consigo colocar-me de fora o suficiente para analisar como seria viver sem a possibilidade de fim.
- Ora, como seria; um tédio de morte! (Agora fiz-me rir.)
- Mas nem tu podes dizer que sem o conceito de fim a vida humana não tinha valor porque simplesmente a caixa mental em que vives não to permite, nem a ti nem a mim.
- Por que é que os homens vão fazem seguros de vida? Porque viver lhe aparece como um valor. Sem a morte, não haveria seguros de vida. É a forma mais simples que tenho de explicar.
- A existência de seguros de vida não é suficiente para me provar a visão da vida como um valor porque tem um fim. Se tem um valor é por ser.
- Achas sinceramente que darias valor à vida se não chegasses a morrer?
- Não consigo saber, consegues? Não acho que seja verosímil qualquer resposta que possamos dar a essa questão.
- Por morrer, a vida não me tem qualquer valor, agora já.
-Por favor, explicita.
- Se não morresse, a vida não tinha valor porque nunca findaria. Como morro, a vida não tem valor por isso mesmo, por acabar. O pináculo da perfeição seria viver para sempre, mas conhecedor da mortalidade. Assim, a vida podia ter todos os sentidos que lhe quisessem dar.
- Concordo; parece-me que resolveria a questão essa imortalidade mortalosciente.
- Mas “como morro, a vida não tem valor por isso mesmo, por acabar”, novo silogismo que não entendo. Como morres, a vida tem todo o valor por ser enquanto.
- Por ser efémera a vida é uma obrigação. Um fardo. Viver é um peso. E se assim é, então não lhe vejo qualquer sentido de ser.
- Consegues explicar tal lógica?
- Não. Estou demasiado cansado. Mas cá dentro sei que faz sentido. Ou quero que faça. Porque com todas as minhas forças o que mais almejo nesta vida é morrer. Saboreá-la toda, destilá-la. E só me dá pena não poder voltar depois de morto, para escrever um epílogo. Ah.
- Escolhe saboreá-la, escolhe destilá-la. E quando for, sem pressas, saberás que será e a janela da percepção vibrará com a luz da verdade.
- Ah, como eu te amo, minha besta!
- E onde andavas tu?, meu ordinário, nunca mais te vi!
- Ando perdido, muito perdido.
- Essa consciência basta para que te encontres.
- Para me encontrar preciso me perder.


(…)

Gualter Ego às 00:57 | link do post | comentar
Sábado, 05.05.12

Voltei.

Às vezes a terra lavrada húmida enche-se de caroujo no desenrolar da noite e parece que alguém andou a espalhar farrapos de algodão pelos minifúndios familiares que se repetem de ladeio. Nessas noites, as tinas da vindima, que quando não é tempo dela esperam ao fundo do alpendre por uso e lavar, estando cheias de água, ganham uma ténue superfície de gelo opaco, quase listrado, redondo nas bordas, da grossura de uma unha - às vezes do pé - e com jeito se põem a girar.
Então, quando era pequeno e se davam essas noites de invernia que amanheciam no despontar de um sol tímido, agradavelmente tépido, sobejamente melancólico, ia lá com o atrevido dedito gordo raspar na tal camada de gelo sobre a água imóvel; arriscava na traquinice e, com o garruço enfiado até aos olhos e o casaco de bombazina maior que eu dois ou três tamanhos a atefogar-me o bafo, um traje xoto mas certamente adorável, meio a a medo, tic, partia o gelo: e do âmago da água vinha uma gentil agulhada morder-me a ponta do dedo.
Agora que cresci, por mor não sei bem de quem, é assim que sinto a vida. Uma agulhada fria e invisível, que se opõe ao toque.
A jactância dos outros pouco se me dá como se me deu. O uivar dos parvos e dos descrentes só me irrita nos calos dos pés. Essa ráfia que para quem compreende não passa de blague não me alivia o mourejar e as dores nas espáduas. É tudo inútil. Tudo termina nas mais impávida demonstração de inutilidade que é morrer. De quanto vale a morte - se pusermos de lado o pensar como existir - se não me lembro de ter nascido?
Sinto a vida a dois passos do vazio, a um dedo de furar o gelo, mas não sei se algum dia o gelo irá quebrar.
Fumo para matar. Há coisas cá dentro que precisam morrer, castelos de areia construídos sobre a cólera que ferve na minha garganta e que precisam ser tomados de cerco, com catapultas e canhões. Fumo porque tenho preguiça - sempre demasiada preguiça - para me matar. Não findo tudo de uma vez, porque espero que o gelo quebre e o sol vibre de verdade na janela mais imaculada do pensamento.

Gualter Ego às 17:44 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 29.04.12

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- Olha lá, se achas assim tanto que a vida não tem sentido, por que é que ainda cá andas?


Há um silêncio. Chaga-me o olhar a luz que bate do soslaio nos prédios brancos da frente. Passa um carro contra a chuva que começa a cair. Uma velha tira a roupa do estendal, primeiro os lençóis, depois as cuecas.

 

- A comida é boa…

Gualter Ego às 04:02 | link do post | comentar
Quarta-feira, 18.04.12

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Agora a moda da ortografia sem cê, agora a moda de ser melhor o que é exclusivo. Gostava que de uma vez nos deixássemos todos de merdas, deixar as metáforas escarradas e as rimas de paixão com coração e deixar de escrever pénis e vagina e ânus - é um caralho, uma cona e um cu - e parar com isso da condescendência que, quem sou eu para duvidar de tão altaneiro queixo e veemente destreza mental, no fundo é só um pedaço de altruísmo alheio, uma dose semanal, talvez mensal, em época de contenção a fidalguia também sabe poupar e até o bolso dos burgueses às vezes encontra fundo, dizia eu uma dose mensal de bondade, caridade, solidariedade, é o que o mundo precisa, já que não há igualdade, que os ricos se sintam culpados da riqueza e caguem umas moedas para a pobretagem.

Este mártir que vos fala já nem forças tem para abrir a boca. Acham vocês por culpa do hálito a cadáver ou dos dentes entortados; nada disso. É que anda tudo demasiado ocupado a falar o dobro só com a boca singular que tem, que a escutar de uma só maneira o que devia ser ouvido por dois ou três.

Deixem-se de merdas. Deixem-se de merdas.

Gualter Ego às 20:54 | link do post | comentar
Terça-feira, 24.01.12
Domingo, 22.01.12

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Primeira estrofe do poema D. JOÃO O PRIMEIRO, Fernando Pessoa
(A Mensagem, Sétimo (II), II. OS CASTELOS, PRIMEIRA PARTE - BRASÃO
)

Gualter Ego às 19:35 | link do post | comentar
Sábado, 21.01.12

O Lamento

Desejo póstumo
E latente,
Dos teus lábios frementes.

O medo,
Na ponta da língua,
Do beijo, na pedra do anel.

Nos cabelos doirados,
Nos pescoços cinzelados,
Das espáduas ao flanco
Vénus em carne e sangue morno.

O beiço latino
De trovadores e anjos cantantes,
O fervilhar de calor nas maçãs do rosto,
Pegaram de fronte este rei-menino.

Ruim ganância a tirou de mim,
Adagas malditas.

Mas a quimera do noss'amor,
Não se fica pelo terreno.
É piedade e benquerença etérea,
Investida paixão no leito ameno.

Morte alguma, nem terra, nem verme,
Te tirará de mim
E Portugal te terá como senhora.

Rainha sempre,
Te proclamo, Inês,
Dos portugueses,
De além e de aquém,
Daqui e do além.

Exumada e
Eterna.

Gualter Ego às 18:14 | link do post | comentar
Segunda-feira, 09.01.12

Morrer é acabar-se o mundo.

Estava um homem a mijar na berma da estrada. Na cabeça cansada, formulou-se o seguinte relato:

Estava um homem a mijar na berma da estrada. Temperava o pavimento com o aquele mijo dourado, sem vergonha nem sentido de privacidade. Estava o homem a soltar-se mesmo ali, na beira do caminho. Onde passam carros e pode passar toda a gente. Despejava o que sobejava das entranhas no rail de preto e amarelo listrado, com o mingalho flácido de fora mais os trastes rugosos e peludos a pender que nem badalos, que falta de decoro, esta gente. Sacudiu-se e caiu-lhe uma lagrimita de mijo na calças castanhas de bombazina pálida. Não olhou para os lados. Não tinha qualquer sentido de pudor. Apertou as calças, puxou a braguilha para cima, zzzt, enfiou a camisola para dentro das calças e apertou o cinto de couro estragado, vincado, deslavado. Continuou sem olhar para os lados. Voltou-se. Veio um carro e ceifou-o. Atirou-lhe o corpo desamparado para quase longe. Medidas que as velhas beatas exageram de janela em janela.
Ninguém lhe foi ao velório. O senhor da funerária poisou uns poucos crisântemos à cabeceira do defunto e acendeu umas velas dos lados do caixão. O morto lá estava, solene, no melhor fato que se arranjou nos arrumos da caridade do convento. Ebúrneo todo de face, como ditam as biologias. O senhor da funerária ajeitava as fímbrias da seda que pendia do caixão. O cangalheiro estava sentado numa cadeira ao canto da casa mortuária, com a cabeça cansada apoiada num punho sujo e cerrado. Era gordo e atabafado. Tinha as peles do pescoço umas sobre as outras, como camadas. Fedia a suor e a carrascão. O senhor da funerária decidiu-se

- Bem, se não está para vir ninguém, tratamos os dois do enterro que é uma pressa

O cangalheiro, cansado e resignado, encolheu os ombros fechando os olhos, já tem a cova aberta desde de manhã quando acordou, mais depressa isto se despachar mais depressa retoma a sua partida de levantamento do copo. Resmungou entredentes umas onomatopeias, já estava um pouco zonzo do tinto, um bocado birolho de sono, uma coisa dá na outra, levantou-se coxeando da perna direita, ai o joelho, podia ter sido o próximo Águas, dizia ele quando a apanhava bem apanhada, podia ter sido o próxima Águas mas fodi este joelho todo num acidente de motocicleta quando era moço, começou de ajudar o senhor da funerária, também gordo, também atabafado, mas sem papos de queixo nem camadas de pescoço nem cheiro a cavalo nem quase bebedeira, vestido de fato preto e gravata preta e camisa branca, engomada de manhã pela excelentíssima esposa, florista na porta ao lado (meus amigos é assim que se fazem riquezas, um ajuda a enterrar e o outro adorna o luto, é assim que se fazem riquezas), a fechar o caixão e a metê-lo a custo no carro funerário. Pensava o cangalheiro que era uma pena esta madeira de pinho envernizada ir servir de atrito aos vermes e às larvas, desfazer-se na pasta de merda em que o corpo ele próprio se iria desfazer, torcer-se e remoer-se com o frio da terra e o libertar dos gases, não o pensou deste modo não tinha cabeça para tanto, pensou que era uma pena esta caixa de madeira que podia servir de espelho, e que deveria valer mais que a sua velhinha zundapp, ir para debaixo de terra onde ninguém a pode ver servir de caixa de sapatos a um monte de ossos. 
Seguiram em passo solene, o senhor da funerária a guiar o carro e o cangalheiro a fazer de procissão atrás, uma procissão de um homem só, onde se já viu tal tristeza, nenhum homem fez mal suficiente ao mundo para ter só a força do dever a oficiar-lhe o enterro. Nem veio padre nem diácono nem houve missa de corpo presente, lá terá o cangalheiro que rezar uns padre nossos entre pazadas de terra húmida. 
De súbito, o ar ficou frio e pesado. Pensou o cangalheiro que fez bem em ter vestido um casaco de manhã. O céu começou a fechar. Curioso, amanheceu um céu tão limpo, nem rasgão de nuvem nem ponta de caroujo. O céu ficou negro de tão cinzento e ameaçou rebentar. O senhor da funerária estacionou o carro funerário de cu para os portões verdes altos do cemitério, tirou o caixão mais o cangalheiro para cima de um carro de rodas de pernas delgadas e ferro frio, como se fosse uma maca daquelas das ambulâncias que se retraem e se prendem sem esforço. Levaram o caixão até à campa, uma campa rasa, sem luxos nem comodidades, sem jacuzzi nem tv por satélite, sem bidé nem cama de casal, era só uma campa, sete palmos mais ou menos bem medidos

- Vamos a isto então

disse o senhor da funerária. Passaram duas cordas por redor do caixão por mor de o baixar à cova, seguraram com força e vigor e trataram com o mais cuidado que dois arcaboiços de pança inchada conseguem ter com coisa de tal envergadura. Ganiram e gemeram um bom bocado, porra que pesava mais só o caixão que o defunto.
O senhor da funerária sacudiu as mãos limpas uma na outra, o cangalheiro queixou-se do joelho enquanto agarrava na pá. Espetou-a no monte de terra solta e fresca que havia feito de manhã, crivou-a com a sola bruta do sapato, agarrou o cabo com a mão esquerda inchada escarlate de frieiras e a terra fez um som de onda a bater na areia, caindo no caixão. Nesse momento, as nuvens abriram-se em tempestade.
Choravam os céus. 
Cada vez que um homem morre, acaba-se um mundo. 
Quando eu morrer, acabando o mundo para mim, pode acabar também o vosso.

Gualter Ego às 22:58 | link do post | comentar
Sábado, 31.12.11

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Foi só mais um ano. Felizmente.

Gualter Ego às 18:34 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 22.12.11

No barbeiro.

- Boas tardes, meus senhores

dá um certo jeito de masculinidade e formalidade à coisa, afinal de contas é com cerimónia que se entra em qualquer santuário e isto não é mais nem menos que isso mesmo, um santuário de homem, até onde todos os presentes somam mais anos em cada dedo que eu inteiro, portanto mostrar respeito e cordialidade fica sempre bem entre irmãos e a ocasião é sempre tomada com solenidade.

 

- Oh, João, como é que isso vai?

 

e não tive tempo de responder

 

- O teu pai?

 

e não me deixou falar

 

- E a tua avó? Na mesma, pois, como haveria de ser, estas doenças que dão numa pessoa e logo a tua avó que foi sempre uma santa, enfim, é a vida, não é

 

sorriu com humildade e resignação, curvando o lábio inferior, em sinal de moderada tristeza, e continuou a cortar cabelo, assim é que se despacha  conversa, havia de ser sempre assim, os protocolos diplomáticos todos tratados em retórica, ao menos só haveria a culpa de um e um só, a conversa de chacha em monólogo bem ritmado para não maçar nem ofender, prever as respostas do destinatário, quem trabalha assim coloquialmente não pode perder tempo, é raro o aperto de mão, mas lá ma apertou, afinal sou de família, continua a falar, sempre a falar, enquanto lavra pelas laterais de mais um careca que continua a vir ao barbeiro só para dizer que foi, não se aguenta em se conciliar com a realidade, está em negação e teima em negar que está em negação, há muitos assim, perdem o cabelo no cocuruto e acham que são menos homens por tal, como se cabelo fosse picha, e o barbeiro, marido da irmã do meu falecido avô que era pai da minha mãe, célere, corta e fala, com arte e engenho, fala e corta, com destreza, ainda dizem as mulheres que o homem é bicho que não consegue tratar de dois assuntos ao mesmo tempo – ora pois tendes aqui a prova em contrário cavalheiras, este senhor que aqui se apresenta já fala da política, do futebol e da vida em geral enquanto corta o cabelo a metade da população da vila – a metade masculina: do moço ao velhote – vai para mais de cinquenta anos e não se vêem jeitos de parar

 

- Nem nunca pensar nisso, a reforma da minha mulher não me chega e até que os dedos me deixem, ninguém me tira daqui

 

justifica-se ele. Ao menos é trabalho que não falta, estão guardados até ao fim do mundo dois ofícios: barbeiro e cangalheiro.
Haverá sempre homem com cabelo a mais e homem com saúde a menos, que não falte a força e o talento a nenhum deles, que haja tesouras afiadas para cortar quaisquer guedelhas e braços robustos para cavar quaisquer últimas moradas.
O senhor que está sentado na cadeira toda de ferro e estufada em pele está a meio das patilhas, sempre tive medo desta parte, desde o tempo em que vinha com o meu pai, comecei a vir muito novinho, com cinco anos, não mais, e lembro-me que tinha de me sentar em cima de uma caixa onde eram guardados produtos para engraxar sapatos e mais duas listas telefónicas, para chegar cá acima e me poderem cortar o cabelo em condições, aos sete anos tiraram-me uma lista telefónica, aos nove tiraram a outra e aos doze tiraram-me a caixa, deve ter sido a primeira vez que me achei um homenzinho. Ia a dizer que sempre tive medo desta parte, ajeitar as patilhas, temos de ficar quieto, muito quietinhos, temos de ignorar aquele cabelo cabrão que faz cócegas no nariz, pediam-me para eu não me mexer e eu cumpria, respirava apenas o necessário e o meu pai, que me levava pela mão, punha-se divertido a contar piadas à traição e eu fazendo uma força sobre-humana para não rir. Piada não tinham, sejamos honestos, nem muita nem pouca, mas fica mal um filho não rir da piada do pai. Mas cumpria sempre, não me mexia e nunca me cortei nem me cortaram a ajeitar as patilhas, aquela navalha que parecia mastigar os pêlos pequeninos, que parecia obra de cirurgião, metia os óculos na ponta do nariz, segurava a navalha com severidade e fazia-a deslizar pela minha têmpora abaixo. Depois ajeitava-me a linha do cabelo na nuca. Gracejava sempre com os meus remoinhos, que tinha este atrás que não ficava quieto e era impossível de pentear e mais dois à frente, então esses da frente assemelhava-se aos que os cabritos têm quando são realmente pequeninos acabados de nascer, sendo eu também um recém-nascido bebé parco em cabelo e assim se notavam mais, onde se lhes vão nascer os corninhos, portanto houve quem me chamasse cabritinho. Dizem até que a minha irmã, ela que brincava com os cabritos como se fossem cães de pastoreio, pequena quando eu nasci, achava realmente que eu teria corninhos.
Está um homem à minha frente e este já está a aparar as patilhas; mais conversa menos conversa, meia hora para mim, daqui a uma hora estou despachado, não contava com menos

 

- Então e essa escola?

- No mesmo sítio

 

mesmo sítio, sempre as mesmas piadas sem piada, tentativas de piada sem piada, calar sem ofender, não me quero alongar, pego num jornal e começo a ler as gordas, ele que se entretenha com a demais clientela, sem ofensa, estou com pouca paciência. De repente o ar alargar-se, como que se abrisse, e entra um calafrio sem pedir licença e os olhos viram-se todos para a cabeça que segura o corpo meio-fora, meio-dentro

 

- Está um frio do caralho, ou entras ou sais

 

penso eu.

 

- Estamos cá poucos, ainda bem, boa tarde

 

repetiu-se a mesma conversa retórica, sem substrato nem polpa, um desinteresse disfarçado de boa educação, mas um método infalível para não perder tempo sem parecer rude. Afinal, qual de nós quer realmente saber do outro quando pergunta como estás? Os tolos e os padres.
Só se pergunta tal para ter a pergunta de volta e desbobinar o que nos apoquenta. Tenho de adoptar este ritual, vomito todas as perguntas necessárias ao entabulamento de uma conversa sem segundas intenções e à fundação de uma saudação inicial de qualquer relação social, a qual com certeza me obrigado a alimentar para não ter que beber sozinho e ficar a vida toda na punheta, despacho logo tudinho, e levo-te para a cama. Parece-me bem. Odeio falar, abomino falar, falar é para fracos, deram-me dedos para falar, não preciso de boca, deram-me rimas e música, não preciso de boca, deram-me nariz para respirar, não preciso de boca, ponham-me no hospital a soro, não preciso de boca.
O homem sentou e disse

 

- Está frio

 

ah, pudesse eu dar na cara com uma cadeira a cada um que diz que está frio em dias de Inverno.
Nem tinha olhado bem para o homem, arrependi-me dos pensamentos violentos assim que o fiz, não parecia mau homem, não senhor, teve o cuidado de fechar a porta atrás dele, arrastar os pés no tapete castanho cheio de pó e cotão e outras porcarias inomináveis e dizer o já referido, depois sacudiu-se e expirou com força. Tirou o casaco e pô-lo no cabide. Depois de já sentado e afirmar o óbvio, olhei para ele

 

- Não parece mau homem, não senhor

 

pensei. Era um homenzinho pequeno, redundância de facto, mas necessária, era ligeiro de corpo e pequeno de estatura, um homenzinho pequeno, podia ser gordo e baixo e ser só um homem pequeno, mas não, era mesmo assim; contudo não deixava espaço a qualquer complexo de superioridade alheia, visto ostentar um faustoso bigode, farfalhudo e imponente - coisa que mete respeito - ondulado quase atrevido, a desenrolar-se-lhe no lábio superior, esticado e grisalho, salpicado de branco e cinzento. O cabelo era idem de colorido, fatalidades da idade, há quem goste e não esconda. Sentava-se todo torto com uns óculos largos e quadrados na ponta do nariz, com as mãos entre as coxas, palma com palma, lambia os lábios num esgar nervoso mas gentil e mordia as bochechas, tinha ar de quem bebia demasiado café e não consegui esconder esse facto. Esperou pacientemente a sua vez, não reparou que eu o olhava, tirava as mãos de entre as coxas e esfregava-las nas pernas. Vestia um fato-de-treino dantesco de um azul medonho que feria as minhas pupilas, com riscas brancas e verdes, ninguém sai assim à rua, mas transparecia humildade por isso mesmo, humildade e indiferença, mas uma indiferença inocente, que não toca a ninguém nem fere ninguém. Não disse nada, ficou o resto do tempo olhando o espelho à frente dele, como se olhasse para um vazio que porventura estivesse para lá do espelho. Tinha um ar de desconsolo cândido. Tinha feição de quem se finca tristemente na vida dos outros, como quem acha que ofende só por dizer boa tarde, de vez em quando olhava para os lados com urgência, com medo de estar a aleijar alguém com a sua presença, depois voltava a olhar para o espelho. Parecia alguém a quem o mundo passa ao lado, a quem o mundo não chama ou esqueceu de chamar. Parecia alguém que um dia acordou atrasado e nunca mais conseguiu acertar o relógio.
O barbeiro que é da família e se chama Silvino, o senhor Silvino, penteou o senhor careca nas laterais e na nuca, e eu pensei

 

- Podia-lhe cuspir nessa tonsura que a mãe natureza lhe deu e puxar-lhe o lustre

ri-me moderadamente do disparate enquanto o senhor careca se levantava e se sacudia

 

- Quanto é?

perguntou o senhor careca

 

- Cinco euros, se faz o obséquio

 

- Isso em escudos dava quanto?

 

- Mil escudos, por aí

 

- Irra, parece menos, ainda me lembro quando pagava oitenta escudos por uma bica, isto está mesmo mal, sô Silvino, isto está mesmo mal

 

pagou em trocado certo, vestiu o casaco e colocou a boina e saiu a puxar o escarro.

O senhor Silvino virou o acento, sacudiu-o e mandou-me sentar, enquanto limpava a tesoura

- Como é que vai ser

 

sempre a mesma pergunta, sempre a mesma resposta

 

- Isto hoje é só um bocadinho, não é preciso cortar muito, ajeitar atrás e fazer as patilhas

 

que é como dizer

 

 - Isto hoje é cortar muito, ajeitar atrás e fazer as patilhas

 

começa por desbastar com pente e tesoura. Arrepia-me nos ouvidos o tique de cortar o ar três vezes seguidas depois de dar um corte no cabelo, toca-me ao de leve na cabeça, dirige-ma para onde lhe parece melhor, olha de cima, de lado, como se fosse escultor, mete o pente zás, zás, e zás, mais um naco de cabelo a cair redondo no chão. Vai buscar um pouco de água quente num púcaro e o pincel de barbear e molha-me a silhueta do cabelo, agarra na navalha e sopra para a lâmina – é nestas horas que se sabem os homens.
 
- Não te mexas, João, não te mexas, vá, tu consegues, respira fundo, não!, não respires fundo, que porra, ah

- Epá, cortei-te, desculpa lá, espera aí, ponho-te aí um penso que isso não é nada

 

e não é, mas arde, porra, há dezasseis anos que cá venho e nunca me tinha cortado, pá.
Fico despachado em meia hora, pago o que devo por um trabalho mal feito, sempre mal feito, às vezes um podia estar pior, mas sempre mal feito, mas nunca (abrenúncio!), nunca vou reclamar ou dizer mal do trabalho do senhor Silvino, nem sentado na cadeira da sua barbearia nem em lado nenhum, nem em altura alguma – não se ofende alguém que trabalha uma navalha tão perto da nossa goela. 

Gualter Ego às 23:27 | link do post | comentar
Sábado, 03.12.11

Interrompo o meu hiato para um breve anúncio.

Se alguém me quiser oferecer o bilhete do último dia do Alive’12 pelo Natal, esteja à vontade.*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*também posso trocar por favores sexuais

Gualter Ego às 00:17 | link do post | comentar
Domingo, 13.11.11

In Memoriam

Que o protagonista desta história, meia-verdade, meia-inventada, descanse em paz. Que quem contou a meia verdade desta história continue a envergar o xaile negro por muitos anos, com estaleca para contar histórias.

 

 

Acho bastante improvável que haja escrito nos anais da história, por entre teias de aranha e pó espesso, escrito a letra grave e gorda, bem arrepimpado e sublinhado em pergaminhos ásperos, que alguma outra vez uma história de amor tenha começado como esta, à custa de uma pasteleira em segunda mão que chiava como se a esfaqueassem, isto se tivesse carne, que tolice, dizer tal coisa de uma simples bicicleta, mas o certo é que aquilo que prendeu o ouvido de Helena Maria naquela fresca manhã de Maio, havia o sol despontado faz pouco tempo, foi o derlim-derlim maroto da pasteleira de Carlos Manuel, ia ele em mangas de camisa e bota negra bem engraxada, para agradar ao olho bovino do patrão, pedalando a bom ritmo, rua abaixo, sete e pouco da manhã, meia légua ainda para pedalar, baixou-se Helena Maria do varandim para mirar o ciclista, ai que é isto que foi que será que me está a dar, pensou ela, ficou a olhá-lo até ele ser apenas um pontinho a passar perto da torre da igreja, fechou as portadas do varandim, benzeu-se e foi torrar pão para a desjejua.

Mas não é aqui que começa esta história, como nunca é, nem pode ser, que nenhuma história começa assim tão abruptamente, tão romanticamente, tão facilmente, no seio de uma aldeia onde tudo se conhece e tudo se fala.

É o Outono de 1961 da era cristã, chove como quem a entorna, as estradas desfazem-se em lama, quem anda a pé tem de pedir licença ao corpo todo para dar um passo, espessa que esta terra fica quando assim chove em torrentes, quem anda de motocicleta fica atolado e tem que pedir que pedir licença ao corpo todo para empurrar a motocicleta cabeço acima, é Novembro e cheira a fumo. Carlos Manuel, vinte anitos feitos há pouco, espigado e de faces severas, de barba bem desfeita e bochechas vermelhas do vento gélido que desliza sem dó das carnes mal vestidas, acordou para o seu primeiro dia de trabalho a sério, depois de gastar a mocidade agarrado à sachola, comeu uma fatia de broa e uma talhada de queijo e bebeu uma caneca de café quente, deu um beijo à mãe e mandou-se à estrada, légua inteira para andar, há que dar à sola, não há dinheiro para automóveis, não há dinheiro para nada, nem para o jornal, comprou-se, uma vez, pelo Natal, uma telefonia que chega para ouvir as notícias e ouvir umas canções, entretém no serão, à luz do pavio, nada mais.


Comentavam as vozes mais grosseiras, ó Manel, chamavam-no assim, vais aí a pé, molhas-te todo mais pareces um pinto, e a chuva caía, nem dinheiro para uma bicicleta tu tens, e ele com o casaco pelas costas e as botas a fazer parecer as da tropa a talintar no chão, como um soco agudo, não ouvia nem fazia caso, não se importava de gastar sola a ir e vir, duas horas de caminhos por dia, se no fim do mês ganhava o seu cordão, dez tostões, guardava quinta parte para si, gastava outra e dava o resto aos pais, nem está a vida tão má enquanto houver dinheiro para gastar, pão para comer e vinho para beber e já dizia o meu pai, enquanto houver vinho há esperança, ponto de exclamação, gargalhada tola, murro na mesa.

 

Dezembro chegou escuro, monocromático, sombrio e gelado numa levada inesperada e repentina de farrapitos de neve, nada sério, bate no chão e derrete, mas faz bater o dente quem não ouviu as previsões das gentes mais velhas, que sabem destas coisas das nuvens altas e redondas. Carlos Manuel sabe tremer e portanto não teme frio – sai todo o santo dia porta afora, faça chuva, faça sol, pode até cair escardoça que nada o prende em casa, antes come uma fatia de broa e a uma talhada de queijo empurradas por uma caneca de café quente, veste o casaco, mete a sacola da merenda debaixo do braço, beija a mãe e sai para o trabalho. Todos os dias isto, légua inteira a pé no frio da manhã, légua inteira a pé no frio da noite precoce, é o sol que se põe a horas indecentes, oxalá chegue depressa a Primavera. Mas esta manhã é diferente, seis do doze de mil novecentos e sessenta e um, é um olhar inopinado que se encontra entre a distracção de um assobio e a timidez que se esconde atrás do vidro das portadas, defrontam-se estas faces inocentes, prolonga-se em ritmo de passeio este ensejo tão lírico e tão rude, são as histórias de amor do povo, não há paciência para mais que isto, Carlos Manuel, matreiro, desvia o olhar e enfia as mãos nas algibeiras das calças, Helena Maria persegue-o com o olhar até ele ser apenas um pontinho a passar perto da torre da igreja, fecha as cortinas das portadas do varandim, benze-se e vai passar o café para a desjejua, odeia sentir as borras na traseira da língua.


É dia da Imaculada Conceição, oito do corrente do ano já mencionado, toda a aldeia vai à missa. Vai Carlos Manuel e lá está Helena Maria, poupam-se nos olhares, mas não se negam um ao outro. Carlos Manuel não escuta coisa alguma, sai no sermão para ir fumar um cigarro com os homens ao adro, sermão é para as mulheres, elas é que precisam de educação moral, nós somos homens e tal tormento nos basta, nascidos e talhados por ordem divina a trabalhar que nem burros e a chafurdar que nem porcos apenas por termos uma picha e dois colhões entre as pernas, ah, foda-se. Dá o padre a bênção, e sai o povo para o adro, ali se sabem as novidades, quem morreu, de que morreu, a quem deixou o que tinha, se tinha, e chega-se Helena Maria discretamente à beira de Carlos Manuel e assim lhe diz, por entre um sorriso sem malícia

 

- Se tivesses uma bicicleta talvez ainda casasse contigo.

 

Carlos Manuel foi e veio do ultramar, combater pela pátria, defender as colónias e os interesses do reino republicano, em nome de Deus e de Salazar, graças a ambos voltou são e salvo para junto da mãe, do pai e dos irmãos, outros de lá vieram em esquifes de pinho que ganharam lugar honroso no cemitério, ainda hoje se lhes rezam missas, paz à sua alma.
Comprou uma bicicleta, a mesma pasteleira ferrugenta que fez derlim-derlim numa manhã fresca de Maio, agora já ia e vinha do trabalho mais folgado, com a sacola da merenda no cesto à dianteira. Carlos Manuel gastou a campainha da pasteleira a tentar que se cumprisse a profecia, botava o polegar aguda e bruscamente dedilhando, derlim-derlim-derlim debaixo do varandim, mas nada se chegou a levar em frente, outros olhos se encontraram, enquanto da sua estada em Angola, e talvez de tanto se benzer, nunca se sabe o norte da cabeça de uma mulher, Helena Maria nunca chegou a casar-se com Carlos Manuel.

Gualter Ego às 02:53 | link do post | comentar
Quarta-feira, 02.11.11

...

(A esperança é o ópio dos tolos.)

Gualter Ego às 04:16 | link do post | comentar
Terça-feira, 01.11.11

Assim me despeço, adeus até um dia.

Soneto de um Amor Gasoso

Ó bicos de gás,
Dizei em vossos rugidos,
Que calores são estes, tão atrevidos,
Como os pentelhos de Satanás.

Dai da vossa engenharia culinária
Alento a este meu coração apaixonado,
E se eu não for capaz de renascer curado,
Dedicar-me-ei à lide agrária.

Quando passas na avenida
De batom rouge e olhar louco
Meu corpo todo se arrepia.

És minha musa, meu ar, minha vida,
Dizer que te amo é pouco:
Por ti, até uma colonoscopia.

- Antero Ayres

Gualter Ego às 23:57 | link do post | comentar
Quarta-feira, 19.10.11

Júnior, o Cão (ou Postal #1)

Não gosto de cães. Pelo menos não tanto quanto gosto de gatos. Não, não gosto mesmo de cães. Não gosto, pronto. São parolos, cagam ao desbarato, mijam(-se) em todo o lado, rebolam-se no estrume e na merda que os outros cães cagam ao desbarato, são atabalhoados, demasiado submissos. Latem, guincham e ladram sozinhos às 4h da manhã. Às vezes, cheios de cio e ganas, juntam-se três ou quatro na mesma rua em sinfonia rouca que fica a ecoar nos ouvidos - pior que o baque seco do martelo do vizinho - que não deixa as pessoas dormir. Lambem os colhões e não o escondem de ninguém, a sua forma de dizer olá é cheirar o recto do outro respectivo canídeo em busca de, apenas e só, fornicação para a procriação. Não gosto de cães. Enchem tudo de pêlo, babam-se, excitam-se se lhes afagam a pança. Não os suporto. 


Surpresa - esta pequena história é sobre um cão. Um cão chamado Júnior, com um focinho de jeito e maneira tal que o faz parecer logo, à primeira vista, um animal simpático e inteligente, de pêlo longo e ondulado, espesso, castanho-russo-ruivo brilhante em dias de estio, um pouco murcho nos Novembros e Dezembros de todos esses anos que passaram. Também com a idade se lhe foi murchando a ruivez natural da pelugem, assim como se me encheu a cara de minas terrestres, perdão, acne ou os meus olhos foram ficando mais amarelados. Era, ipso facto, um cão esperto e cheio de vida - por vezes, quando o chamava e ele vinha apressado deitar-se de papo para o ar aos meus pés, podia jurar que o via sorrir. Sério!
Júnior, o cão, existe desde que eu me lembro das coisas existirem, ou seja, desde a pequenez de uns singelos quatro ou cinco anos de idade. É ele o cão duma das minha vizinhas, não vive paredes-meias mas vive ao fundo da rua, isto de aldeias é assim, é-se vizinho até onde for aceitável ir pedir uma colher de fermento, vizinha essa que tem uma filha com certa idade, uma certa idade parecida com a da minha irmã, já contam ambas com vai para mais de vinte e quatro anos, crianças dos anos 90, nunca paravam quietas, para cá e para lá entre a casa de uma e a da outra , folheando revistas Bravo, suspirando pelos Backstreet Boys, usando-me, inocente criança indefesa como figurino de roupas novas ou cobaia de cosméticos, provador oficial de lanches duvidosos, sempre a personagem masculina nos joguinhos que faziam a imitar as novelas, fazia de macho latino na alta pequenez dos meus já ditos 5 anos, não é para todos. Pior que tinha de passar pelo tal cão enorme, peludo, de orelhas prodigamente felpudas, mais fulvas que o resto do corpo, com uma gravata de pêlo branco a descer-lhe desde os papos até ao bucho, para entrar em casa da minha tal vizinha. Chorava sem me dizerem nada, bastava ouvi-lo ladrar, tinha medo dele, cheguei a mijar-me uma dramática vez em que minha mãe me mandou ir buscar uns ovos à tal vizinha e, distraído, passei pelo escadario pequeno da entrada sem pedir permissão ao bicho e ele saiu lançado da sua casota a latir violentamente e pronto, comecei a berrar e fiz xixi nos calções, sorte que foi a ir buscar os ditos ovos e não a trazê-los, era tragédia grega soltar-me assim e ainda partir meia dúzia de ovos.
Eu cresci, ele também, a minha irmã e a filha da minha vizinha zangaram-se, nunca mais se falaram, e eu, vindo da escola ainda primária, confianças de vizinho, fazia questão de passar pela latada onde estava a casota do Júnior, brincar uns cinco minutos com ele, esfregar-lhe bem aquela pança gorda, coçar-lhe debaixo da mandíbula, e ele regalado, no chão, virado para o céu, com as patas brutas em jeitos simpáticos, se me afastava, levantava-se prontamente, vinha atrás de mim. Pedia-lhe a pata e ele dava a pata. Pedia-lhe a outra pata e ele dava a outra pata. E estávamos nisto tempos infinitos.
Se eu, por fome ou por que fosse, não por lá passasse, ele ladrava violentamente como que reclamando, mas bastava eu exclamar “ó Júnior!” ou dar um assobio longo que ele levantava as orelhas e abanava o rabo.

Deixei de por lá passar, vindo já da instituto, quinto, sexto, sétimo, oitavo e nono ano, ia lá uma e outra vez, festa de aniversário, dar um recado, pedir fermento ou ovos, lá está, chamava-o, brincava com ele, afagava-lhe gentilmente a cabeça, reparava que começava a cara até a murchar-se-lhe, os olhos a ficar vermelhos por fora e negruns por dentro, e ele abanava a cauda, mais peluda que a crina de um cavalo, mais felpuda que a de um coelho, feliz por me ver, lambia-me as mãos, ainda dava a pata - e a outra também, às vezes esquecia-se, mas eu alembrava-o - e logo se punha novamente de barriga para o ar.
A tal minha vizinha e o marido, quando comecei a estudar no liceu, davam-me boleia até à vila, para não ter que ir de autocarro. Ele era a primeira vivalma que eu via todos os dias de manhã, às vezes ainda o sol não havia despertado, fazia frio ou chovia, mas ele vinha sempre a abanar a cauda, só em busca de uma coçadela nas orelhas.


Abateram-no hoje, pouco depois da hora de almoço. Estava velho e doente, estava surdo e muito débil, pejado de moscas e varejeiras a seringarem-lhe a paciência, tão fraco que nem força tinha para se abanar e enxutá-las.
E eu chorei. Não era o meu cão, não era uma pessoa e eu nem sequer gosto de cães, mas uma parte da minha infância morreu com ele. Era o Júnior. E eu chorei.
Ficam as memórias.

Gualter Ego às 22:43 | link do post | comentar
Sábado, 15.10.11

...

Desconfio que isto vai ganhar pó e traças - quiçá musgo ou bolor. Vou mandando postais.
Gualter Ego às 01:59 | link do post | comentar
Quarta-feira, 12.10.11

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Hoje é o ontem de todo o santo dia e eu chovo desalmadamente. Oxalá tivesse folga de pensamentos - nem que fosses aos feriados e nos dias santos.

Gualter Ego às 17:39 | link do post | comentar
Domingo, 02.10.11

Vera de Santo António - Parte II

Os laços do sacro matrimónio entre homem e mulher são indissolúveis, indestrutíveis como se de aço fossem, aos olhos do Senhor, e só se quebram em ocasião da morte de uma das partes – haverá vezes em que com a guita sem ponta na mão morrem os dois, sem saber mais do que do seu parceiro devido, fazendo luto até ao derradeiro dia – por ser o Homem um bicho que precisa do calor de outrem a jeitos de não definhar lentamente em prantos, moldando-se tal como se lhe passam os dias, agindo automaticamente até ao leito de morte, sem querer saber de mais nada, com a velinha de pesar de frente da imagem de Nossa Senhora, em memória e promessa e um perpétuo assombro toldado na face, pesada, negra, opaca.

À santidade do matrimónio se vai buscar as bases das relações humanas, pessoa é pessoa, primeiramente, em sua família, até criar a própria sua e passar a ser o homem da casa e a mãe dos filhos – à santidade do matrimónio devem-se muita explicações, as razões de tanta porrada, de tanto aturar os maridos borrachos, de tanto mijo e vómito para aparar aos filhos cheios de mau-olhado, só pode ser, Mãe do Céu nos acuda. Enfim, todas as fatalidades que uma jovem mulher não pode evitar, por se ter amalucado de amores, certa vez, no riacho, Agosto fervilhante, por um sujeito encorpado de sorriso maltês, talo de ervinha avulsa de entre os seixos dos riacho entre os dentes, olhão negro de perdição, tez mulata, de ancestrais duvidosos, talvez mouros, quem sabe, esta coisa dos genes é mesmo assim, e assim bastou para se afastarem as pernas atrás de um chaparro, entrou o amor por ela adentro, abençoou-lhes Deus os dedos anelares e pronto, cá está ela, mulher de um beberrão que lhe prometeu guardá-la e respeitá-la até à morte, mas pelos vistos esvaziou-se-lhe a caridade depois de nascer o primeiro filho.

Mesmo bêbado tem a mão pesada, Miguel de Santo António. Vera de Santo António não chora na presença dos filhos, não quer dar parte fraca, não quer já romper a pureza das suas crianças, antes sorri-lhes entre socos e pontapés, e o homem espuma da boca, atarantado, tropeçando pela casa, está doido de cólera, é o vinho que põe os homens assim, ora deve ser vontade divina, que se da água bebemos e de bichas morremos, só temos mais é que beber o sangue do Filho do Homem, dois patacos o copo, é um roubo, mas eles lá o bebem, de secura não morrem.

Quando se levanta de noite, cuidadosamente entre dois roncos do marido, vai descalça e cheia de cuidado, não vá fazer ruído algum e acordar o legítimo esposo, que tanto trabalho tem e tão cansado a casa chega, merece descansar, coitado, ou não vá tropeçar nos calcanhares de algum dos filhos, que dormem também ali na esteira, para se aquecerem uns aos outros, e esse reclamar que tem fome ou que tem sede e murchar-se o coração à mãe por não ter nada que lhe dar senão côdea e água choca. Levanta-se porque não consegue dormir, e se dorme torna a acordar pouco depois, cheia de suores frios, ofegante, tem medo que o marido acorde nestas ocasiões, também, não vá ele pensar que ela tem outro homem às escondidas e sonha com ele, ali, costas com costas com o marido e assim tão descaradamente tem afrontamentos; ah, mas o marido tem sono pesado, é o que lhe vale.

Abril molhado dava ar de si em chuviscos pertinentes, furtivos, curtos mas de grande levada, bate a chuva na pedra e quase que parece que ela racha com medo, mas a noite estava primaveril, convidativa à observação astronómica, pois que, de pouco em pouco, batia uma ventania nas nuvens, quase que um sopro divino, e elas dissipavam-se e descobria-se a Lua, que iluminava toda a colina, de cima a baixo, tanto coelhos quanto raposos, tanto javalis de focinho rente ao chão, criaturas assim preteridas do Senhor por para ele nunca se dignarem a olhar. Pequenos reflexos cristalinos se tombam das folhas, gotas de chuva que se arrastam, gotículas de orvalhada que ali descansam, o vento é frio e arrepia a espinha.

Vera de Santo António vai e vem, num frenesim por explicar, de braços cruzados defronte do peito, com a Lua a iluminar-lhe a nuca descoberta do cabelo puxado do lado direito do pescoço para pender pelo ombro até aos seios, ofegante, com um olhar neurótico, pregado no chão, titubeando palavras loucas, moribundando. Quem a visse chamar-lhe-ia o demónio feito carne – e não estaria longe da verdade. 

Acordou tremendo, encharcada em suor, arfando que nem um cão, não esperneou nem gritou em êxtase durante o sono, foi o que lhe valeu para não acordar o laborioso marido, coitado, que não está para aturar mulheres cheias do infortúnio danado que é sonhar com o Diabo, esse mesmo o Satanás, o Belzebu, patudo que nem um bode, cornudo talqualmente, vermelhudo de encarnado-sangue, escarlate-guelra à volta dos olhos, fundos e cheios de sombra, dentes podres, pontiagudos, sorriso irónico, malicioso, queixo agudo, garras torcidas, negras, todo nu, porém sem o tradicional tridente, molhando as pontas dos cascos encardidos numa poça profunda cheia de sangue de infiéis.

Desengane-se quem achar que Vera de Santo António está só com a moléstia habitual de quem pariu há pouco tempo, ou com alguma inconsistente alucinação febril, isto de ter visões drásticas do Mal e um já profundo rol de alucinações apocalípticas é trabalhoso e pode vir a custar a vida a uma pobre mulher que apenas na vida errou uma vez e foi em ter nascido.

Gualter Ego às 03:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 01.10.11

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Pouco há que seja mais sagrado que a hora da conversa digestiva à volta de uma mesa redonda de um café. A hora dos fodasses todos, dos caralhos tu viste-me aquele golo, dos epá isto da escola anda a fazer-me mal, o fumo intrometido dos cigarros de enrolar a serpentear por entre esta juventude a saltar de hormonas e excitação.

Até que chega a sabedora feminina e dita vocês só pensam em futebol.
Olha-me que caralho, ahn, só pensamos em futebol.

Poucas horas depois, metendo-se por entre uma conversa de pura homenagem às curvas femininas, a mesma sujeita exclama que vocês só pensam em sexo, até mete nojo.
Ó meus amores, vocês decidam-se.



Gualter Ego às 16:30 | link do post | comentar | ver comentários (2)

...

Quero tudo o que é terra abaixo do céu,
E dão-me canteiros.

Quero o mar e as marés,

E dão-me um copo d'água.

Quero todos os livros de todas as bibliotecas,
E dão-me um guardanapo.

Quero guerras, revoltas e insurreições,

E dão-me dores de barriga.

 

Um dia,

vou deixar de dizer que um dia.

Gualter Ego às 04:00 | link do post | comentar
Terça-feira, 27.09.11

Das redes sociais.

A minha rede social favorita é a grade de mines.

Gualter Ego às 22:04 | link do post | comentar

Gatos.

Alberto, Norberto e Felisberto, três gatos brancos, com o focinho rasgado de listras de um castanho aclareado, pela genética felina, tendo Norberto manchas heterogéneas e monocromáticas entre o nariz e os olhos, passam o dia todo nisto: rolam, rebolam e mordem-se uns aos outros, enrolam-se, esticam-se e batem com as patinhas levemente nas orelhas empertigadas do irmão que estiver por sua vez de guarda, à beira do cesto vermelho furado em quadrado com um jornal desportivo a forrar o chão e um fofo casaco velho de malha grossa, verde e áspera a servir de aconchego aos bichinhos. Olham cá para fora com os olhos azuis bem abertos e o pescocito bem esticado. Bufam com força quando lhes tento alcançar. Mordem gentilmente o meu dedo brincalhão.

É um regalo só de olhar

Gualter Ego às 22:03 | link do post | comentar

´

Esqueci meus olhos
Nalgum sítio menos próprio:
Uma saia promíscua
Ou uma blusa transparente.

Mas tudo ainda me cheira ti.

Gualter Ego às 00:23 | link do post | comentar
Domingo, 25.09.11

Adicione uma legenda.

 

Gualter Ego às 23:27 | link do post | comentar
Quarta-feira, 21.09.11

As potencialidades do Acordo Ortográfico.

A empresa do indivíduo que montou as caleiras da minha habitação chama-se TonyTectos. Ao abrigo do acordo ortográfico, será lógico que o senhor adopte uma das principais cinco medidas, que é a supressão das consoantes mudas. Até aqui, tudo bem, mas é sabido que no latim - e nas línguas novas derivadas deste, incluindo a nossa - as consoantes mudas servem para abrir a vogal precedente, ou seja, a empresa do senhor vai passar a chamar-se TonyTetos, leia-se TonyTêtos.
Ah, mas isso é estúpido, lê-se como já se lia, não estejas com merdas ó pseudo-tudo, que isso de pôr cês e pês antes de não sei quê eu nunca acertava e lixou-me a vida e fiquei com o nono ano incompleto por causa desses negócios. Epá, tudo bem, eu não concordo com Acordo Ortográfico e vou ter que comer e calar, mas acontece que, na parte inferior do logótipo da empresa do sujeito, encontram-se os principais serviços que o senhor presta aos seus clientes: montagem de caleiras, marquises e tetos falsos - o Acordo Ortográfico, não basta ser uma medida com objectivos puramente económicos, para ajudar às relações politico-económicas com os PALOP, como não respeita a dignidade do proletariado.

Meus senhores, assim não dá!

Gualter Ego às 15:37 | link do post | comentar
Terça-feira, 20.09.11

...

Estava a fazer o caminho de casa em ziguezague pela berma da estrada quando se me assomou tal cisma, "porra, mas quem é que eu sou, afinal?".

Ai.

Gualter Ego às 23:33 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Do Bukowski.

O Bukowski lá estava, numa capa de cor-de-rosa desmaiado, quase sujo, cheio de vincos, com o título Mulheres, assim mesmo, em itálico e o nome do sujeito, CHARLES BUKOWSKI, assim mesmo, por baixo, em letras capitais.

Tirei-o da prateleira, numa espécie de ansiedade marota, ui, vou ler um livro d'homem, isto é que vai ser, passei os dedos pela capa, examinei-a, examinei a grossura da publicação, abri-o ao meio, nomes estrangeiros e muitos pontos finais, bem, assim seja.

Sentei-me confortavelmente encafuado num sofá verde da biblioteca, o mais escondido, ladeado por um armário de madeira clara envernizada. Encostei lá a cabeça, cruzei a perna como homem que se digne - que é de maneira tal a ser possível jogar uma batotinha em cima da perna, afastada, em ângulo recto, horizontal, tal e qual - e abri o livro. Ah, mas que cousa era aquela. Comi trinta páginas enquanto a fome não venceu a batalha contra a vontade de ler, o que deu vinte minutos de leitura, mais coisa menos coisa.

Ao sétimo capítulo - são capítulos pequenos - já tinha contado três tusas inesperadas e tinha dado por mim com um sorriso de escárnio maroto e sádico pintado na cara - um smirk - por isso mesmo. Fui levar o livro à estante, e expirei como que confessando a mim próprio "assim está bem".

Ao sair da biblioteca dei um outro tal smirk e pisquei o olho à bibliotecária. Isto só com trinta páginas. Estou rendido.

Gualter Ego às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 15.09.11

Ode ao Minimalismo.

Palavra; verso.

Rima (!)

Palavra, verso,

Rima: quadra.

Gualter Ego às 22:41 | link do post | comentar
Quarta-feira, 14.09.11

...

Este corpo não me serve na alma; traga-me o número acima.

Gualter Ego às 03:27 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 13.09.11

Este latino sabe-la toda.

O coração de um homem tem mais quartos que uma casa de putas.

 

- Gabriel García Márquez

Gualter Ego às 02:06 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Segunda-feira, 12.09.11

Planos.

No dia do décimo sexto aniversário do meu hipotético filho vou*:

 

  • Levá-lo às putas.
  • Fazer com ele uma maratona de O Senhor dos Anéis.
  • Pagar-lhe uma cerveja. Certamente uma Sagres Mini.
  • Embebedá-lo com Super Bock para que ele ganhe tal pavor a ela que só de a cheirar queira vomitar-se.

 

*não necessariamente por esta ordem

Gualter Ego às 02:37 | link do post | comentar
Domingo, 11.09.11

11/9/2001

Dez anos são cinco milhões e duzentos e cinquenta e seis mil minutos, ou seja, muito tempo. Dez anos foi o tempo que o Benfica esteve sem ganhar o campeonato nacional de futebol desde 1994, ou seja, demasiado tempo. Dez anos são dez anos que não se parecem dez anos, mas sim um ontem escondido, cheio de retalhos, remendos, fiado em trapos, desfeito em bocados, uma colagem de memórias do dia em que o mundo mudou para todo o mundo - e só mudou para mim porque foi a primeira vez que me lembro de ser pela primeira vez. Dez anos após a queda do World Trade Center em Nova Iorque, tenho mais quarenta quilos e mais sessenta centímetros do que tinha na altura. As minhas células já se substituíram completamente, morreu o Papa João Paulo II, as televisões deixaram de pesar dez quilos, os computadores já não ocupam uma secretária inteira, Portugal jogou uma final futebolística e perdeu contra um país sem herança nesse desporto e descobriu-se água em Marte.

 

Esta será, muito provavelmente, a narração da data mais recuada que eu me consigo recordar com exactidão e certeza.

 

Sei que acordei cedo, cheio de genica, bom puto que era, quase ao primeiro raio de sol, e gloriosamente vesti uns calções de ganga e a minha mítica t-shirt do 101 Dálmatas, usada até se romper nos ombros e se desfiar no fundo. Tinha 6 anos e faltava-me um dente daquele que constituem o frontispício dentário de cima. Era a manhã do meu primeiríssimo dia de aulas, dia onze de Setembro de dois mil e um, o que aparentava ser, apenas, mais um dia.

Minha mãe arranjou-me como se de uma menina eu me tratasse, penteou-me, perfumou-me, esfregou-me os dentes e na noite anterior fez questão de ser ela própria a dar-me banho. Ainda hoje ando a tirar água dos ouvidos. Depois de me dar o pequeno-almoço e me pentear pela terceira vez, ironia das ironias, enfiou-me um boné apertadíssimo pelas orelhas abaixo e deu-me um grandessíssimo beijo puxado numa das minhas bochechas gordas.

Minha mãe tomou-me pela mão e fomos juntos andando até à escola primária desta terra que fica longe de tudo menos da própria terra, onde se respira terra e se come da terra. Foi no meu terceiro ano que aquela escola albergou o maior número de alunos. Cinquenta e seis, bem contados, mais raparigas que rapazes, coisa que a nossa inocência, a de então, não fazia caso. Não podia ter tido educação melhor. Tanto sabia de contas de dividir - a verdade é que até hoje não as aprendi a fazer - como andava a lavrar com os dentes na gravilha do campo de futebol, onde eram dez rapazes contra dez rapazes, mais dois gordos à baliza, um em cada, e as cachopas nos alpendres a jogar ao elástico e que, muitas vezes, mea culpa, levavam uma ou outra bolada no bucho. Bem, estou a divagar, dizia eu que minha mãe me tomou pela mão e fomos juntos andando até à escola primária desta terra, terra pequena.

Diz ela, minha mãe, que meus olhos brilhavam, ao entrar pelos pequenos portões verdes da escola, sempre fui uma criança de gostos singulares e duvidáveis. A professora era alta - bem, com 6 anos 90% das pessoa é alta - muito morena e de cabelo preto, liso. Usava franja. Tinha rugas de expressão e chamava-se Beatriz.
Quando me largaram da mão, a primeira coisa que fiz foi ir ver as balizas. Mãe de Deus, eles tinham balizas verdadeiras, de ferro e tudo, isto devia ser o melhor lugar do mundo. Depois corri e saltei canteiros e muros, fiquei com as sandálias de fivela todas enterreadas, mas a minha mãe, surpreendentemente, não se zangou. Devia ser porque era menino da escola primária, agora comia nas mesas grandes do refeitório e tinha livros e uma caneta do Super-Homem e então já não podia ralhar comigo porque o respeitinho é muito bom.

Teimei em ir embora, deviam ser umas onze da manhã, já tinha brincado com o Eduardo, com o Simão, já tinha visto a Ana Rita, a minha eterna paixão de infância que durou até ao segundo ano, quando comecei a escrever cartas de amor - que infante precoce, mal sabia eu o que o porvir me reservava, suspiro - e a metê-las na caixa de correio da agora, agora então isto é, minha paixão eterna, que durou até eu perceber que das mulheres, aos 8 anos, não se tira nada senão um beijo nos lábios muito atabalhoado e uma frieza de espírito comparável a poucos bichos irracionais. Não há criatura nenhuma mais passivo-agressiva que uma miúda de oito anos, porra. Divago novamente, perdão. Vi o Duarte e o Hélder e o Carlitos e só não joguei à bola porque ninguém levou bola. Fiquei triste porque o Simão tinha ido para outra sala.

Já só me lembro, então, de fazer birra para ficar e da minha mãe a despedir-se, custosa, comigo a pesar-lhe na mão, birrento, e de imediatamente a seguir estar sentado no sofá castanho da cozinha, a olhar muito atento para a televisão que agora está no sotão. Era meio-dia. a minha mãe estava a desascar batatas no lava-loiça. Não há cheiro mais distinto do que o de batata descascada mesmo antes de pôr na panela, em ex aequo com aquele que é o do resto de almoço de domingo a resquentar lentamente no bico mais pequeno do fogão.

A minha mãe já tinha trocado de roupa e vestido uma bata fresca de andar por casa. A mesa estava posta, quatro pratos, eu e as três senhoras da casa, o pai estava a trabalhar.
Duas torres enormes num sítio longe estavam a deitar um fumo negrum terrível. Dois aviões tinha batido contra elas. Mas que raio faziam os aviões a voar tão baixo?, perguntava eu, e como é que foram logo dois?, continuava eu, calado, mas a pensar. Depois fiquei muito nervoso, diz a minha mãe que até com os olhos trémulos de lágrimas, porque havia pessoas a saltar de tão alto. E eu não percebia porquê.

Não fazia ideia do que se passava, mas sei que estava bastante aborrecido, porque as torres estavam a deitar fumo em todos os canais e eu queria ver os desenhos-animados.

 

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Gualter Ego às 00:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 10.09.11

...

As coisas bonitas passaram a ser escritas no meu molesquine. Ou seja, sucks to be you. Só vou escrever bobagens, daqui em diante.

Gualter Ego às 05:07 | link do post | comentar | ver comentários (1)

...

São cinco da manhã e não há mais que fazer senão dormir. Não tenho ponta de sono. Tenho, sim, calor e vontade de vomitar - deve ter sido do púcaro de leite que bebi de um trago antes de vir para aqui fazer nem ponta-de-corno. Vou, portanto, jogar GTA3 e distrair-me a explodir pixéis e a chacinar velhinhas corcundas com sacos azuis com armas automáticas. E sim, uso códigos de armas e sei aquele para ter o tanque de guerra e tudo.

 

Tenho que acordar daqui a 4 horas.

 

Gualter Ego às 05:04 | link do post | comentar

...

Deus que acabe com isto! Abra as eclusas
E basta de comédias na minh'alma!

 

- Álvaro de Campos in O Opiário

 

Gualter Ego às 04:53 | link do post | comentar

É a primeira vez que faço isto, onde falo de uma coisa que vou fazer pela primeira vez.

Vou escrever um texto sobre o 11 de Setembro. O de 2001. Exacto, esse. Sai amanhã, dia 11 de Setembro de 2011. O drama.

Gualter Ego às 03:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 07.09.11

...

Um
Poema

É
Uma
Parede
De
Nevoeiro.

O
Poema
Alevanta-se
Brusco
Do

E

Das
Cinzas
E
Grita
Em
Sussurros.
Um
Poema
É
Uma
Erecção.
Figurativamente.
Literalmente.

Gualter Ego às 03:22 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Manifesto-poema.

A Lua

É apenas um calhau
Flutuante.

Um rio é,
Apenas,
Um curso de água doce
Que corre para o mar.
(E, às vezes,
Para um outro rio.)

O nascer e o pôr

Do Sol
São apenas o produto
De um grão de areia giratório,
No vasto e vazio Universo,
A correr
Em volta de uma bola
De gás flamejante.

 

O céu estrelado
É apenas a mise en scéne negrum
De várias bolas de gás flamejante.

 

Uma nuvem
É apenas uma massa suspensa
De água.

A Humanidade
É o equivalente cronológico
Ao último segundo do dia
Trinta e um de Dezembro
Na linha temporal do Universo.

 

Amor é bioquímica.
Atracção é instinto.

 

Uma lágrima
É apenas um líquido glandular.

Um sorriso
É a contracção de vários músculos
Da face.

 

A rapariga que amas
É apenas um aglomerado disforme
De células
Que morrem e se substituem dia
Após dia

(Daqui a sete anos,
Ninguém será constutuído
Pelas células que hoje o constituem:
Somos memórias em corpos diferentes.)

Achais vós
Que isto é um poema?

Gualter Ego às 02:18 | link do post | comentar
Terça-feira, 06.09.11

Intervalo.

O limbo dos dias, o verdadeiro purgatório das almas, quando tudo é levado à barra dos tribunais celestes, quando saem porta afora os gatos pardos que não são gatos, se chama lusco-fusco. Aqueles longos minutos de tudos e quases depois de sol já posto estar, mas os candeeiros da rua ainda acesos não se estão. O cheiro a pinho dança na brisa do dia a adormecer, meia lua digna-se a aparecer e tudo está envolto numa película sombria de penumbra em contraluz, é tudo uma miopia nas coisas, o desfoque súbito de todos os objectos no sítio que tomam.

E se tudo isto for um sonho? Sonho não é, tanto que obedeço a todas as leis da física que se me apresentam, perpetuadamente caio à terra, corro, faço a Terra rolar debaixo dos meus pés.

E se tudo isto for um sonho de outrem? Ó diacho, que cousa é esta, que dizes tu rapaz, não blasfemes. A música das coisas salta nas duplicadas sombras que me perseguem numa correria desenfreada tocada por um saltitante guincho de um morcego confuso.

Tenho ganas de chorar, tenho vontades de rasgar a roupa e me deitar, assim, solenemente, no gramado frio do campo onde as cabras pastam e cagam, assim só, sem saberem que pastam e cagam, e mirar as estrelas.

Tenho demasiado pensar dentro da cabeça, engrenagens, brr-brr-brr-tchack-crack-brr, roldanas, cabos, vapor e ferrugem, o motor da Máquina do Mundo é alimentado a intervalos de pensar.

 

Tudo isto poderia ser objecto de tese filosófica, isto é, se eu tivesse mínimas respostas a todas as perguntas que me coloco e, não menos importante, as palavras todas que são necessárias para um bom discurso sobre os cenários metafísicos, os relativismos e as ilusões da mente, do pensamento, do êxtase que é ser e sonhar, e sonhar sendo. Mas como não as tenho, nem as respostas nem as palavras, prendo-me voluntariamente - rendo-me - à poesia, esse pico de montanha que está a um salto de pulga do pico da montanha da filosofia, mas com um abismo escuro, frio e inacabável a separar.

 

Tenho as pernas a tremer.

Gualter Ego às 15:53 | link do post | comentar

...

6/9/11

3:34h

 

Dois gatos pegaram-se, sibilando, grunhindo de cólera, um gemido quase tão arrepiante como grito de bebé, mesmo por baixo da janela do meu quarto. Ouviu-se um batuque. Nada mais se move.

Gualter Ego às 15:52 | link do post | comentar

Fade Out

 

 

 

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Gualter Ego às 15:48 | link do post | comentar

Vera de Santo António - Parte I

As gentes deste corrente e malogrado tempo, que vivem da terra e dela se sustentam, por não limparem o cu com o oiro do Brasil, vivem ganindo de fome e a tinir de sede, que comida pouca é e a água é de tão má qualidade e ruim fonte que nem dela se lavam, lavam-se com o próprio suor, fosse esta gente gato ou cão e lamber-se-iam para se aprumar, mas língua de homem não chega a todo o sítio e assim se vive, penteando-se o cabelo antes do jantar com cuspe, que lá por sermos pobres não somos nenhuns gandins que não se ajeitam antes da hora sagrada de comer. Passando a mão pelo suor da testa, solenemente se lava a cara, para que a palidez da fome na face se distinga do restante corpo encardido, que já tem poeira até aos ossos.

Na água da fonte só molham os lábios, para enganar o corpo, preferem beber do vinho ou da aguardente, que se for da boa arde na garganta pior que brasa na pele e assim se matam as eventuais chagas de corpo ou de mente.

A morte vive ao lado desta gente, partilham com ela a cabeceira da cama, ou a esteira no chão onde dormem os gaiatos, ou então dorme no palheiro ou no curral, mas ela por lá anda, seja por onde for, onde houver pessoa, matreira, como cão de guarda, empurrando, coitados, os miúdos sedentos que se debruçam sobre os charcos de água enlameada e com as mãos fazem concha e de lá bebem e depois morrem de febres e de diarreias, desfazem-se em merda, os catraios, Deus tenha piedade destas alminhas que se vão sem sequer terem idade de pecar, braços que mais parecem galhos de Outono, a pele das bochechas agarrada ao crânio, os olhos encovados, melhor assim, poupa-se-lhes uma vida de cão.

É todo um calvário, esta vida de pobre, do buraco primeiro, ao buraco último, a cova onde se irá depositar o cadáver, a morada derradeira, a ironia de viver uma vida inteira, quase quarenta anos, com fome e depois de morto servir de festim às larvas, os sete palmos abaixo de terra onde se irá sepultar a dita rija e serena carcaça, se honrarias dessas houver, muitos há que são atirados insepulcros para pântanos, nem que se diga apenas um padre-nosso e se espete uma cruz de Cristo à cabeceira da campa, para não se ir para o mundo de lá desgraçado de todo, depois faz-se algum luto pelo pai de família que morreu esmagado pelo carro dos bois, mas a vida continua, o filho mais velho é agora o homem da casa e tem de sustentar a mãe e cinco irmãos.

Os filhos, lá está, esses, fazem-nos às meias-dúzias, sem saber o que se lhe há-de dar para enganar a fome, não comem cinco, não comem seis, não é problema grande, mais dois braços para a seu tempo irem para a eira ganhar uns trocados. A culpa é dos homens, que no instinto primordial da carne chega-se a noite e parecem bois de cobrição picados pela mosca, sobem à mulher em tamanha brutidão que ela nem ousa dizer que não, confundem-se os corpos sujos e fedorentos, cumprem-se os labores de procissão, misturam-se fluidos e suores e bafos a vinho barato de pipo seboso, suspiram os corpos e pronto, lá fica a semente do diabo plantada no útero maldito desta mulher, que há-de parir um filho maldito numa hora maldita, pois qualquer filho que por este tempo se faça é feto amaldiçoado desde o início dos tempos para aqui vir ser parido, seja feita a Sua vontade.

A culpa é das mulheres, não tivesse Nosso Senhor as feitos tão formosas e apetecíveis, cheias de carne e curvas, tão falaciosas e traiçoeiras quanto Eva, e assim, por Eva, se têm as dores excruciantes de parto, dizem elas, que eu sou homem e o meu único trabalho é fazê-los e sustentá-los, não é pari-los. Menos de nove meses depois salta cá para fora mais um anjinho a berrar de vida, magro que nem um cão vadio, fruto de um levantar de saia imponderado e fortuito. Morrerá antes de conseguir sequer dizer que é vivo. Seja feita a Sua vontade.

Por este tempo não se vive, espera-se pela morte. É a comida a encurtar e a fome a engrandecer, é toda uma carestia de vontades, não há sequer o prometido pão-nosso de cada dia, nem que fosse uma carcaça de pão de anteontem, duro que nem cornos, molhava-se no caldo, estava o problema resolvido, mas nem côdea rançosa, nem um pedaço de sardinha, nem sequer a cabeça da sardinha, até os podengos d’el-Rei se alimentam melhor, comem pão molhado na gordura da carne, ai, se o nariz comesse, ai se olhos comessem, mas não, nada, e aqui se está, fatigado de fraqueza, sem forças sequer para respirar e o estômago colado às costas.

Todavia, todo este povo vive numa paz de alma que só se vê igual no reino dos Céus, por entre os anjos e arcanjos do Senhor. Prometem-lhes o Paraíso, um lugarzinho reservado na vivenda celeste. Pobre que nada tem, nada tem que possa perder, é pobre mas é livre, nada o prende à terra, e mesmo se algo o prendesse, quando morresse deixava cá tudo.

E assim vivem contentes, mesmo levando desta vida apenas porrada e miséria e as tripas a revolver de fome, porque sabem que se vivem mal, na próxima vida do mundo de lá irão viver uma vida eterna de riquezas e sobras. Vivem contentes com a esperança de uma nuvem fofa e quente onde dormir, no Paraíso, embalados pelas doces harpas dos anjos. Vivem na fome e não se importam, pois se morrerem absolvidos dos pecados irão ter banquetes maiores do que os que se vêem nas cortes do reino, dizem os frades às escondidas, e que oiro nenhum pode comprar. El-Rei diria o contrário, que ele é, pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc., e se bem lhe aprouvesse podia armar um banquete tal que até aos olhos de Deus fizesse inveja.

(Diz-se, até, que deu a Deus uma fome de insónia, no princípio dos tempos, e tirou uma costeleta a alguém com o pretexto de lhe fazer uma companheira, quando todos sabem que nada disso seria necessário, visto que a Deus tudo é possível.)

O problema maior é que pobre, e digo pobre sendo nome em vez de adjectivo, não tem dinheiro e, assim, não paga a dízima e vai arder nas chamas eternas do Inferno. Seja feita a Sua vontade.

Tudo é suor, pus, cuspe espesso e escarro nojento, ganir de fome e de piedade divina. Não se fez o Homem para isto.

Vera de Santo António, camponesa de peitos fartos e voz tremida, aparentemente ingénua e fraca, com olhos negros de carvão, cara redonda e sobrancelhas arqueadas para dentro da cara, como se estivesse sempre desconfiada de tudo, acaba de parir o terceiro filho, fruto do casamento com Miguel de Santo António, sapateiro bêbado.

O primeiro filho, que era uma menina, morreu-se-lhes antes de ser parido, porque não se pode nascer morto, e o segundo, José de Santo António, catraio esguio com olhos rasgados, negros como a mãe, cheio de remoinhos no cabelo, a fazer lembrar os cabritos antes de se lhes nascerem os corninhos, que viveu o suficiente para ter nome, tem agora dez anos. É franzino, mas já cava terra e acarta calhau de palmo e meio.

O bebé que nasceu é menino, também. Nasceu a chorar como a maioria, como se soubessem ao que vêm, rechonchudo e vermelhão, é bom sinal. Prontamente se agarrou à teta de mãe como quem se agarra à vida. Miguel de Santo António tenta não olhar para esta cena, não lhe vão dar ganas de fazer outro e de depois ter de lhe pôr pão na boca.

Gualter Ego às 00:00 | link do post | comentar
Segunda-feira, 05.09.11

Do contacto humano.

A presunção humana afunila-se: “é em dinheiro ou cartão?”; “quer um saco?”; “quer arroz a acompanhar?”.

Isto não é humanidade, isto são punhetas! - eu que nunca uso pontos de exclamação.

Gualter Ego às 23:56 | link do post | comentar
Sábado, 03.09.11

Cocó.

Quando vou obrar e há um pedaço de cocó que teima em não se ir com a força da água, aquela potência hidráulica causada pelo mecanismo do autoclismo, caio sempre no erro de lhe chamar cagalhão de merda.
E é assim que um insulto imponderado se transforma num pleonasmo brejeiro, mas que tem a sua certa piada naquele determinado ensejo.

Gualter Ego às 22:52 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Do homem e da cerveja.

Dizem, alguns,

Que um rapaz passa a ser homem

Quando lhe crescem pêlos

Nos colhões.

 

Tenho pelos nos colhões

Desde os treze anos
E tanto quanto sei
Não me tornei homem.

 

Dizem, outras,
Que um rapaz passa a ser homem
Quando perde a virgindade.

Perdi-a
E nunca mais a encontrei
E não me tornei homem.

 

Dizem, também,

Que um rapaz passa a ser homem
Quando ganha barba.

Ora, eu já tenho barba -
Notável, bem negra
E pontiaguda -
E não me tornei homem.

 

Porém, esta noite,
Dormirei como homem,
Tendo acordado rapaz menino,

Pois que hoje,
Num gesto desatento,
Meu pai tirou duas cervejas do frigorífico,
E deu-me uma delas a beber.

 

Vimos o futebol
E bebemos as cervejas,
Os dois, juntos,
Como pai e como filho.

 

Sou, agora,
Um homem.

 

(Tanto quanto

Eu me fizer.)

Gualter Ego às 13:33 | link do post | comentar
Terça-feira, 30.08.11

...

Quase romance é bater uma punheta com a mão esquerda.

Gualter Ego às 18:45 | link do post | comentar

Deer Grohl.

A obsessão pela perfeição apenas se equipara à obsessão pela normalidade. Eis toda a podridão hipotética da humanidade - fala o roto ao desnudo.

Corro pela imortalidade e evito-me de morrer.

Gualter Ego às 05:58 | link do post | comentar
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